Reencontros
- Olá, desculpa…
- Sim?
- Nom és Marta? Marta Soutulho? Recordas-me? A faculdade.
- Ou, és Mónica! Quanto tempo! Nove anos polo menos! Como andas? Senta e pide um café. Falemos.
- Vai. Bom, a ver como fago para nom encarregar o berço antes do rapaz… Lembras o Marcos?
-Lembro bem, oh. Que foi dele?
- Somos parelha! A cousa surgiu assim de súbito. Vivemos numha casa às aforas. A vida dá tantas voltas…
- Dá, oh. E tedes nenos?
- Umha menina, Carlota. Aguarda. Aqui. A foto da escola. Somos cuspidinhas, verdade? É um céu de criança, andámos parvos com ela. Pena nom ter mais vagar. É como a areia, foge das maos… Crescem tam aginha…
- Já… Eu vejo isso nos sobrinhos… Oe, e de trabalho que?
- Como todos, botei um tempo de bolseira em um laboratorio. Gostava disso. Ti sozinha, à tua bola, com as tuas mostras e os teus contrastes. Mas nom dava, e opositei. Já ves, acabei no ensino.
-Está bem isso de dar aulas…
- Só que a educaçom hojendia nom é o que era. Porvezes parece que falas com as paredes. Acreditas que o que fas é importante e acabas por aceitar que nom, que o alunado está a outra cousa, que pregas para os peixes. Só continuas porque no meio da massa há umha pessoa, duas quiçás, com as que parece que conectas, duas sereias que encantas no meio de tanta rabaliça. Só por isso paga a pena. Mas falo de mais, ainda nom sei nada de ti. Conta. Que figeches nestes anos?
- Ando metida nas Implicadas, conhece-las?, umha ONG…
-Ah, sim!!! Que enredaras com umhas moças aí de Lugo para fazer cousas na Índia. Mas nom é novo. Já estavas nisso há dez anos…
- Isso é. O nosso projecto fijo dez anos!. Já nom vivemos no mesmo planeta. Nestes dez anos ajudamos a que o mundo seja um pouco diferente, quando menos nos bairros de Tiruchi onde botamos a andar. Vem sendo como a tua Carlota. Os nossos projectos som areias que nos fogem das maos e tomam forma própria. Nom som castelos no ar precisamente. Nunca pensamos chegar tam longe.
- A cooperaçom… nom acredito muito nela. Tanta guerra, tanta fame, tanta miséria… E todo nas maos das multinacionais. Ao final, o mundo segue igual e o que fazedes serve de bem pouco.
- Nom é assim. Nós fazemos o que ti na escola: somos pescadoras de sereias, escuitamo-las e deixamos que nos enfeiticem. No mundo há mulheres, homens, comunidades inteiras, a luitar por viver com dignididade o dia a dia. Nós o que fazemos e colaborar para que a sua luita seja conhecida de todas. Vamos tecendo umha teia, levando cabos de um grupo a outro. Trata-se disso, de tecer umha tapeçaria de respeito que anule essa ideia de que nada muda.
- Vê-se que estás satisfeita… Mas IND nom és ti. Que novas há na tua vida pessoal?
- Nom sei onde acaba IND e começa a minha intimidade. Isso é implicar-se: aprendes, expos-te, sintes, compartes, conheces, vives… e acabas por enredar e já nem recordas onde ficou o cabo do novelo. IND ajudaria a mudar umha miga o mundo: a mim mudou-me inteira. Pouco me assemelho àquela que conheceches. Agora som outra.
- E como és agora?
- Agora som umha implicada.

4 comentarios:
obrigada polo prémio!! dá gosto ver o nome de umha em espaços tam implicados como este...
por dez anos mais, e outros tantos que venham; depois, a igualdade e a justiça.
susarins
o relato é precioso, breve pero moi expresivo! que fortuna contar contigo!
reimon
Que boas son esas últimas liñas do diálogo...
Escribin unha nota sobre o relato no blog de Enxeñería Sen Fronteiras
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